Desmontando a máquina: a cartilha para quem está disputando o debate público em 2026
#democracia #desinformação #eleições #inteligência artificial #violência políticaO Brasil vai vivenciar as primeiras eleições em que ferramentas de IA generativa estão amplamente acessíveis, em um momento em que cresce a violência política de gênero e a desinformação. Que táticas precisamos desenvolver para permanecer na disputa do debate público nos meios digitais? É nesse contexto que surge a cartilha Desmontando a máquina: comunicação digital e disputa do debate público, uma produção da Coding Rights em parceria com Mulheres Negras Decidem, Instituto Democracia em Xeque, NetLab UFRJ e Sleeping Giants Brasil.
A máquina
Uma desinformação sobre seu trabalho ou coletivo começa a circular numa quinta-feira à noite. Não sai num jornal, não sai numa live: nasce num grupo de Telegram com 150 pessoas, é testada ali, ajustada, e no sábado já está em cinquenta grupos de WhatsApp de bairro, com áudio, com print, com uma indignação que parece legítima. Na segunda-feira, quando a sua equipe finalmente vê, a versão já mudou três vezes e ganhou um rosto: o seu, montado em um vídeo que você nunca gravou. Você senta para responder e descobre o pior: qualquer resposta que você escrever vai repetir a acusação.
Isso não é azar, nem o preço de estar na internet, é o funcionamento normal de um sistema que foi desenhado, decisão por decisão, para que conteúdo que ativa as emoções, como medo e raiva, circule mais rápido e mais longe do que conteúdo que informa. A máquina está fazendo exatamente aquilo para o que foi construída.
A cartilha Desmontando a máquina, em seis módulos, faz a engenharia reversa das plataformas, mostra o que a inteligência artificial muda na eleição de 2026 e entrega protocolos práticos para mandatos, movimentos sociais, organizações e pessoas comunicadoras. Foi desenvolvida a partir de uma aposta: este momento não é só de risco, é também de oportunidade. A de fazer comunicação de forma estratégica e se apropriar das tecnologias como ferramentas de luta e de construção de poder coletivo. O jogo segue em aberto, e a cartilha é uma ferramenta para jogá-lo melhor. Disponível para download gratuito.
O que tem dentro
O material está organizado em seis módulos, pensados para serem lidos na ordem ou consultados na emergência.
1. Como a população brasileira se informa? Antes de falar em desinformação, vale saber por onde a informação chega. A pesquisa Desigualdades Informativas, do Aláfia Lab, mostra que as redes sociais já são a principal fonte de informação do país, com 53,5%, passando na frente da televisão e dos portais de notícias, enquanto os aplicativos de mensagem seguem crescendo: eram 21,5% em 2024 e chegaram a 28% no ano seguinte. Só que a média esconde o que mais importa. Onde cada pessoa se informa muda bastante conforme gênero, raça, escolaridade e renda, o que quer dizer que o tabuleiro informativo já é desigual antes mesmo de a desinformação entrar em campo.
2. A Máquina: como as plataformas foram desenhadas para favorecer conteúdos radicalizantes. Os algoritmos premiam emoção intensa em vez de veracidade, e a monetização faz o resto do serviço, transformando polêmica em modelo de negócio. O módulo também refaz o caminho que a mentira costuma percorrer, testada primeiro no escuro de um grupo de Telegram, amplificada nos grupos de WhatsApp e só então solta no claro das plataformas abertas, e explica o dark pooling, esquema em que a porta da frente está trancada mas os anúncios continuam entrando pela porta dos fundos. No fim vem o dado que explica muita coisa, porque entre as regiões avaliadas o Brasil é o que registra os níveis mais baixos de acesso a dados de plataforma. E é difícil provar aquilo que não se pode medir.
3. Psicologia da persuasão radical. O módulo destrincha os oito gatilhos que a desinformação aciona, do medo e da raiva ao pertencimento, à urgência, à identidade ameaçada, à conspiração, à autoridade falsa e à falsa imparcialidade. Depois vira a lente para o nosso lado e nomeia as armadilhas em que a gente cai na hora de responder, como começar pela negação em vez da verdade, repetir a acusação, adotar o vocabulário de quem atacou e reagir só com texto. Mas não deixa a crítica sozinha: no lugar de cada erro, entrega um roteiro de contranarrativa que dá para seguir na hora em que o ataque acontece.
4. Violência política de gênero como tática de silenciamento. A pesquisa Regime de Ameaça, do Instituto Marielle Franco, da Justiça Global e da Terra de Direitos, documentou 77 casos entre 2021 e 2025, e em 71% deles a ameaça envolvia morte ou estupro. Enquanto isso, em quatro anos de vigência da Lei de Violência Política contra a Mulher, o Monitor do Instituto Alziras não registrou nenhuma condenação definitiva. A cartilha trata isso pelo nome: não é efeito colateral do debate público, é tática deliberada para esvaziar esse debate de determinados corpos. E não para no diagnóstico, porque mostra como documentar as provas, blindar as contas e acionar os canais de apoio na hora em que o cerco aperta.
5. IA e eleições: o novo campo de disputa. O módulo explica o que a Resolução nº 23.755/2026 do TSE determina, o que ela proíbe e onde ficam as brechas, e percorre os deepfakes que já circulam, do face-swap ao deepnude, passando pela clonagem de voz, que uma pesquisa da University College London indica passar despercebida por ouvidos humanos em 27% dos casos. Um quadro mostra onde as ferramentas de detecção ajudam e onde elas falham, e o resultado mostra que elas funcionam bem com figuras públicas de muita presença online e mal justamente com quem tem pouca. Para quem virar alvo, há um protocolo de resposta.
Mas o módulo não é só defesa. Ele parte de uma premissa direta, a de que ignorar a IA não é neutralidade, é desvantagem, e aponta usos legítimos para o nosso campo, da produção de conteúdo devidamente marcado ao monitoramento das narrativas adversárias e à acessibilidade dos materiais.
6. Comunicação progressista eficaz. O último módulo sai da reação e entra na disputa. Em vez de responder ao que o outro campo pauta, propõe monitorar antes para chegar na frente, e em vez de depender do alcance que as plataformas entregam, construir rede própria de quem cria e distribui conteúdo. Sugere ainda ocupar os canais em que temos menos presença, como o YouTube e o WhatsApp, disputar espaço fora da bolha e assumir que escolher uma ferramenta de IA é uma decisão política como qualquer outra. Nada disso é sobre falar mais alto, e sim sobre fazer uma comunicação mais enraizada nas comunidades, mais consistente no tempo e mais honesta sobre as emoções que estão em jogo.
“E entender essa arquitetura é condição para disputá-la.”
Desmontando a máquina, Módulo 2
Protocolos para usar na segunda-feira de manhã
Talvez a melhor notícia sobre a cartilha seja que ela não termina no diagnóstico. Cada módulo entrega passo a passo aplicável, do protocolo de verificação em dez passos, para descobrir se aquilo que chegou no seu grupo é verdade, até o roteiro de resposta a deepfakes. E o de contranarrativa começa com uma instrução que contraria todo instinto de quem trabalha com comunicação: parar por vinte minutos antes de escrever qualquer coisa, porque a pressa é aliada de quem está atacando. No fim vêm ainda os endereços que a gente esquece justamente na hora do desespero, como o SIADE do TSE, as agências de checagem, o Semanal DX, a Maria d’Ajuda, o Plantão Colmeia, a SaferNet Brasil e o CVV.
Baixe, leia e espalhe
O material é gratuito e foi feito para mandatos, candidaturas, organizações da sociedade civil, movimentos sociais, pessoas comunicadoras e jornalistas que atuam em defesa dos direitos humanos, da justiça social e da justiça ambiental.
Sobre a cartilha
Desmontando a máquina: comunicação digital e disputa do debate público é uma produção da Coding Rights em parceria com Mulheres Negras Decidem, Instituto Democracia em Xeque, NetLab UFRJ e Sleeping Giants Brasil. Obrigada por somarem com a gente.

Autoria: Joana Varon, Juliana Mastrascusa e Laila Almeida Braga.
Ilustração: amandrafts.
Design e diagramação: Carolina Simonian.
Publicada em maio de 2026, sob licença Creative Commons CC BY-NC-SA 4.0.
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