TRAMAS e Tech Cartographies na RECONFERENCE 2025
Em dezembro de 2025, a Coding Rights se fez presente na RECONFERENCE 2025, um dos encontros feministas mais importantes do mundo, realizado em Kathmandu, Nepal. Levamos para o evento a oficina “Tech Cartographies” e a primeira instalação do projeto TRAMAS, compartilhando nossas perspectivas críticas sobre tecnologia, território e poder, a partir de uma perspectiva transfeminista e latinoamericana.
Joana Varon, diretora executiva da Coding Rights, conduziu as atividades que materializaram nosso compromisso com uma análise tecnopolítica feminista, antirracista e decolonial das infraestruturas digitais.
RECONFERENCE 2025: Repensar, Reimaginar, Reiniciar
A RECONFERENCE 2025 marcou o retorno de um dos mais importantes encontros feministas globais a Kathmandu, seis anos após sua primeira edição. Organizada pela CREA em celebração aos seus 25 anos, a conferência reuniu ativistas, acadêmicas, artistas e defensoras de direitos de todo o mundo em um momento crítico.
O contexto de 2025 é radicalmente diferente de 2019. O que antes parecia um exercício de imaginação – repensar, reimaginar, reiniciar – tornou-se uma necessidade concreta. Movimentos feministas e de justiça social enfrentam ofensivas conservadoras crescentes, enquanto antigas estruturas de poder se desestabilizam. É neste cenário que nos encontramos para fortalecer nossas redes e estratégias.
A escolha do Nepal como sede reafirma um compromisso político. O país tem sido historicamente um espaço de encontro para ativistas sul-asiáticas que enfrentam fronteiras hostis em suas próprias nações. Foi o primeiro país da região a descriminalizar diversidades sexuais e sua Constituição avançou na defesa de direitos de minorias de gênero e sexuais. Kathmandu também tem história com a CREA: sediou a conferência “Count Me In!” em 2011 e, em 2024, o renew: South Asia Sex Workers’ Summit, que gerou a Declaração de Kathmandu.
TRAMAS: tecnologia, tramas, territórios
Na RECONFERENCE 2025, levamos o projeto TRAMAS: tecnologias, tramas, territórios, desenvolvido pela Coalición Feminista Decolonial por la Justicia Digital y Ambiental, da qual a Coding Rights é parte integrante. A iniciativa foi transformada em uma instalação de arte que traduziu visualmente as intersecções entre tecnologia, poder e território a partir de uma ótica feminista e decolonial.
Visitantes puderam ver cartões lindamente ilustrados em estilo xilogravura pela artista Giovanna, conhecendo casos críticos que expõem a materialidade violenta da infraestrutura digital e seus impactos desproporcionais sobre comunidades marginalizadas.









A relevância do projeto foi reconhecida no jornal oficial do evento, onde TRAMAS apareceu em destaque ao lado de “Coded Bias” e outros projetos inspiradores. Foi emocionante ver nosso trabalho ganhando visibilidade internacional e poder levar a perspectiva feminista latino-americana sobre justiça digital e ambiental ao Nepal.

Tech Cartographies: apresentando a materialidade da “nuvem”
Complementando a exposição, realizamos a oficina “Tech Cartographies” no dia 10 de dezembro, às 11h (UTC +5:45), no Main Lawn do evento. A atividade utilizou nosso Mapa dos Territórios da Internet para desmantelar uma das narrativas mais poderosas e enganosas da era digital: a metáfora da “nuvem”.
A internet, de nuvem, não tem nada. Ela é uma estrutura física, geolocalizada e marcada por relações de poder. Cabos submarinos, satélites, antenas, servidores, computadores, celulares, resíduos tóxicos e consumo energético massivo compõem sua realidade material. A narrativa mágica da “nuvem” alimenta um imaginário que existe na ausência de um lugar ou território, mas a verdade é que a internet é um território em disputa.
A oficina propôs uma conversa sobre tecnopolítica para instigar visões críticas sobre a relação entre tecnologia e meio ambiente, analisando as dinâmicas de poder da internet e seus impactos em nossas vidas a partir de uma perspectiva feminista, antirracista e decolonial. Como organização feminista, nosso compromisso é sempre evidenciar como essas infraestruturas tecnológicas reproduzem e amplificam desigualdades de gênero, raça e classe, ao mesmo tempo em que destroem territórios e ecossistemas.
As pessoas participantes foram encorajadas a olhar para as novas tecnologias com olhos críticos, compreendendo que os impactos ambientais e sociais da internet não são neutros nem distribuídos igualmente. Comunidades indígenas, mulheres, pessoas racializadas e do Sul Global pagam o preço mais alto pela infraestrutura que sustenta a economia digital. Foi maravilhoso trocar ideias com feministas de tantos lugares ao redor do mundo e apresentar nosso trabalho.
Trocas que nos fortalecem
A experiência de participar da RECONFERENCE 2025 reforçou para nós a importância de construir pontes entre lutas locais e movimentos globais. Conhecer as lutas de ativistas da Ásia, África, Europa e outras regiões da América Latina ampliou nossa compreensão sobre como as infraestruturas digitais impactam diferentes contextos, e como as resistências se organizam localmente.
A CREA tem uma frase que ressoa com nossa prática: “alegria e prazer são integrantes de nossa política”. Isso se materializou ao longo de toda a conferência: na forma como a arte foi tratada como ferramenta política, não como enfeite; na forma como a dança e a marcha, o protesto e o poema coexistiram; na forma como o rigor analítico não excluiu a criatividade e o cuidado coletivo.
Na Coding Rights, também acreditamos que nossas metodologias importam tanto quanto nossos objetivos. Por isso trabalhamos com mapas, jogos, instalações artísticas, xilogravuras. Por isso buscamos construir pontes entre diferentes saberes e práticas. Nossa luta por justiça digital precisa ser sustentável, criativa e cuidadosa, não pode reproduzir as lógicas de extração e esgotamento que denunciamos nas Big Techs.
As conversas em Kathmandu reforçaram o quanto não estamos sozinhas. Materializar a internet, revelar seus impactos territoriais e ambientais, questionar quem lucra e quem paga o preço – essas são lutas compartilhadas que se fortalecem quando se conectam globalmente.
Voltamos do Nepal com mais clareza sobre a urgência do nosso trabalho e renovadas para continuar. Seguimos na construção de futuros tecnológicos mais justos, feministas, antirracistas, decoloniais.
Para conhecer mais sobre o projeto TRAMAS, visite tramas.digital
E para ver tudo o que rolou, acesse https://www.creaworld.org/reconference/
Obrigada, CREA!